Eu prometi pra mim mesma que não iria escrever sobre isso. O
motivo eu não sei ao certo. Talvez não me sentisse preparada o suficiente para
me expressar sobre uma tragédia dessa dimensão, eu que nunca escrevi e
divulguei algo que não dissesse respeito aos meus sentimentos e as coisas que
fazem parte do meu cotidiano.
Mas dessa vez não me contive. Sabe quando você sente uma
melancolia, uma tristeza que vai e vem, e sabe que só escrevendo aquilo vai te
deixar em paz? Alguns vão me entender. Nunca fui uma pessoa de me abalar a esse
ponto por uma tragédia. Fico pesarosa, triste por um tempo e pensando na
efemeridade da vida, mas aquilo logo me abandona e eu volto à minha vidinha
normal. Mas não dessa vez.
As notícias do incêndio chegaram até mim logo de manhã. E no
período da tarde, fiquei por umas quatro horas lendo cada publicação do Zero
Hora e do Diário de Santa Maria. Em uma delas, haviam nomes de feridos. E eu,
meio imprudentemente, usando das minhas habilidades de stalker, fui procurá-los
no Facebook.
Achei o perfil de alguns. Vi aquelas fotos de algumas moças
lindas, um rapaz com um bebê, outros que adoravam malhar e postavam imagens na
academia. Todos sorrindo, naquelas fotos que sempre postamos nas redes sociais
e para as quais fazemos toda uma preparação. Todos tão iguais a nós. Porque
podemos afirmar o contrário, mas nós jovens somos meio padronizados na internet.
E principalmente na vida.
Porque aqueles jovens eram universitários. E nós sabemos o
quanto estamos ralando pra entrar em uma faculdade. Eles estavam numa daquelas
festas que a maioria de nós adora. E saíram de casa pensando no máximo nas
pessoas interessantes que poderiam estar lá ou na ressaca do dia seguinte.
Assim como nós fazemos, com pequenas variações, por mais que insistimos em
negar isso.
Esse texto já está enorme, mas é simplesmente tanta coisa
pra tentar engolir em um dia só... Como aquela história do pagamento das
comandas. E uma única saída de emergência. Um alvará vencido. Um show de
pirotecnia muito mal executado. Uma sucessão de erros, de irresponsabilidades e
falta de humanidade. Aqueles pequenos “acasos” que resultaram em uma catástrofe.
Só consigo pensar nos depoimentos de bombeiros sobre os
celulares tocando no peito das vítimas; um deles com 104 chamadas perdidas da
mãe. Na moça do jornal que disse que suas 3 colegas de república estavam na
festa, e ela só pôde localizar uma delas. Uma coisa tão corriqueira, como as
pessoas com quem você mora para fazer faculdade, se transformar em uma
lembrança tão amarga.
Algumas pessoas na boate correram para os banheiros achando
que ali haveria saída. Olhando o mapa do local, percebi que eu faria o mesmo em
uma situação de desespero. Também sou uma pessoa pequena, e em um tumulto,
seria facilmente deixada para trás. E todas aquelas mães que, como as nossas,
se preocupam quando um filho sai à noite? Não quero nem imaginar a dor delas,
porque imagino minha própria mãe, que sempre confia em me deixar sair para
voltar de madrugada, por mais que eu já tenha feito besteira em uma dessas
vezes.
Talvez tudo isso tenha ficado confuso demais. Mas é assim
que eu estou. É simplesmente muito difícil pensar claramente na situação. Minha
cabeça dá voltas em todas as informações tristes, e não consegue, talvez nem
queira, encontrar um culpado (que é o que eu geralmente faço). Só queria que
tantas dores cessassem; que uma borracha fosse passada para que essa festa não
tivesse acontecido; tivessem saídas de emergência decentes; o cara da banda não
tivesse sido burro a ponto de acender um sinalizador num lugar fechado; que o
dono da Kiss fosse alguém de mais responsabilidade. Qualquer coisa que evitasse
que esses jovens, que poderiam ser eu ou você, estivessem vivos, e essas mães,
que poderiam ser a minha ou a sua, não estivessem chorando.
