segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Não sei nem como nomear


    Eu prometi pra mim mesma que não iria escrever sobre isso. O motivo eu não sei ao certo. Talvez não me sentisse preparada o suficiente para me expressar sobre uma tragédia dessa dimensão, eu que nunca escrevi e divulguei algo que não dissesse respeito aos meus sentimentos e as coisas que fazem parte do meu cotidiano.
    Mas dessa vez não me contive. Sabe quando você sente uma melancolia, uma tristeza que vai e vem, e sabe que só escrevendo aquilo vai te deixar em paz? Alguns vão me entender. Nunca fui uma pessoa de me abalar a esse ponto por uma tragédia. Fico pesarosa, triste por um tempo e pensando na efemeridade da vida, mas aquilo logo me abandona e eu volto à minha vidinha normal. Mas não dessa vez.
    As notícias do incêndio chegaram até mim logo de manhã. E no período da tarde, fiquei por umas quatro horas lendo cada publicação do Zero Hora e do Diário de Santa Maria. Em uma delas, haviam nomes de feridos. E eu, meio imprudentemente, usando das minhas habilidades de stalker, fui procurá-los no Facebook.
    Achei o perfil de alguns. Vi aquelas fotos de algumas moças lindas, um rapaz com um bebê, outros que adoravam malhar e postavam imagens na academia. Todos sorrindo, naquelas fotos que sempre postamos nas redes sociais e para as quais fazemos toda uma preparação. Todos tão iguais a nós. Porque podemos afirmar o contrário, mas nós jovens somos meio padronizados na internet. E principalmente na vida.
    Porque aqueles jovens eram universitários. E nós sabemos o quanto estamos ralando pra entrar em uma faculdade. Eles estavam numa daquelas festas que a maioria de nós adora. E saíram de casa pensando no máximo nas pessoas interessantes que poderiam estar lá ou na ressaca do dia seguinte. Assim como nós fazemos, com pequenas variações, por mais que insistimos em negar isso.
    Esse texto já está enorme, mas é simplesmente tanta coisa pra tentar engolir em um dia só... Como aquela história do pagamento das comandas. E uma única saída de emergência. Um alvará vencido. Um show de pirotecnia muito mal executado. Uma sucessão de erros, de irresponsabilidades e falta de humanidade. Aqueles pequenos “acasos” que resultaram em uma catástrofe.
    Só consigo pensar nos depoimentos de bombeiros sobre os celulares tocando no peito das vítimas; um deles com 104 chamadas perdidas da mãe. Na moça do jornal que disse que suas 3 colegas de república estavam na festa, e ela só pôde localizar uma delas. Uma coisa tão corriqueira, como as pessoas com quem você mora para fazer faculdade, se transformar em uma lembrança tão amarga.
    Algumas pessoas na boate correram para os banheiros achando que ali haveria saída. Olhando o mapa do local, percebi que eu faria o mesmo em uma situação de desespero. Também sou uma pessoa pequena, e em um tumulto, seria facilmente deixada para trás. E todas aquelas mães que, como as nossas, se preocupam quando um filho sai à noite? Não quero nem imaginar a dor delas, porque imagino minha própria mãe, que sempre confia em me deixar sair para voltar de madrugada, por mais que eu já tenha feito besteira em uma dessas vezes.
    Talvez tudo isso tenha ficado confuso demais. Mas é assim que eu estou. É simplesmente muito difícil pensar claramente na situação. Minha cabeça dá voltas em todas as informações tristes, e não consegue, talvez nem queira, encontrar um culpado (que é o que eu geralmente faço). Só queria que tantas dores cessassem; que uma borracha fosse passada para que essa festa não tivesse acontecido; tivessem saídas de emergência decentes; o cara da banda não tivesse sido burro a ponto de acender um sinalizador num lugar fechado; que o dono da Kiss fosse alguém de mais responsabilidade. Qualquer coisa que evitasse que esses jovens, que poderiam ser eu ou você, estivessem vivos, e essas mães, que poderiam ser a minha ou a sua, não estivessem chorando.

2 comentários:

  1. Lú, penso exatamente como você. E se, aí na Bahia a notícia foi chocante, a proporção para nós, aqui no RS, foi horrorosa, inacreditável. Foi uma notícia desconcertante, estou confusa também, pois parece algo inconcebível, a ficha ainda não caiu. Agora tudo o que podemos fazer é dar nosso apoio e nossa solidariedade da melhor maneira possível, pois poderíamos muito bem estar no lugar deles, jovens como nós, que tinham sonhos e uma vida inteira pela frente. Deixo aqui meu luto, juntamente com o teu.

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    1. Imagino, Sô. Vocês devem ter ficado ainda mais chocados, pois sempre temos alguém que vive próximo ou naquele local, ou ainda que conhece alguma vítima. E junto com a tristeza vem a revolta de um acidente que poderia ter sido evitado.
      De agora em diante, só podemos prestar solidariedade as famílias e amigos das vítimas e cobrar que locais sem condições de receber eventos sejam fechados, para que não ocorram mais tragédias desse tipo.

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