domingo, 2 de junho de 2013

Capitão Gancho

"Se não fossem as minhas malas cheias de memórias
Ou aquela história que faz mais de um ano
Não fossem os danos
Não seria eu
Se não fossem as minhas tias com todos os mimos
Ou se eu menino fosse mais amado
Se não desse errado
Não seria eu
Se o fato é que eu sou muito do seu desagrado
Não quero ser chato
Mas vou ser honesto
Eu não sei o que você tem contra mim
Você pode tentar por horas me deixar culpado
Mas vai dar errado
Já que foi o resto da vida inteira que me fez assim
Se não fossem os ais
E não fosse a dor
E essa mania de lembrar de tudo feito um gravador
Se não fosse Deus
Bancando o escritor
Se não fosse o Mickey e as terças feiras e os ursos pandas e o andar de cima da
Primeira casa em que eu morei e dava pra chegar no morro só pela varanda se
Não fosse a fome e essas crianças e esse cachorro e o Sancho Pança se não fosse o
Koni e o Capitão Gancho
Não seria eu."




    Para os domingos melancólicos e cheios de lembranças.

sábado, 1 de junho de 2013

Aquelas polainas



    Eu sempre quis a tal da polaina. Sabe aquelas ideias fixas da infância que insistem em não desaparecer? A minha franja reta da 7ª série (que todos diziam estar linda quando na verdade estava um horror) foi um dos frutos desses desejos. Mas aí eu decidi que queria aquilo, por mais que nas revistas da Avon insistissem em colocar nas fotos apenas crianças usando com sapatinhos da Barbie.
    Tive medo de parecer ridícula. Mas resolvi tomar coragem (porém ainda com um tanto de receio). Usar aquele item diferente implicaria em deixar as opiniões dos outros de lado, fato que sempre foi meio difícil para mim. Mas como boa teimosa que sou, não aceito deixar que meus medos governem a vinha vida. E resolvi comprar um par.
    De cor preta, para combinar com tudo, e bate a dúvida: como usar? Meu primeiro impulso foi procurar no Google aqueles blogs de moda que ensinam a usar até cocô de cavalo de uma maneira "fashionista" e que todos olhariam admirados. Mas já que estava assumindo uma atitude de empoderamento, ao tentar me libertar da opinião alheia, não seria um tanto irônico buscar o "aval" justamente daquelas que criam os padrões de vestimenta atualmente? Não seria, mais uma vez, uma dependência 
dos outros procurar pela maneira mais "aceitável" de se usar uma peça de roupa? 
Eu sequer conheço as moças que escrevem tudo aquilo, e procurava as dicas delas num afã desesperado de sentir que não me olhariam torto, dependendo de como eu usasse o objeto de meu desejo.
    Depois de fechar a guia da pesquisa, percebi que as ferramentas para saber o que é bonito e o que é feio (para mim, óbvio) eu já tenho: um par de olhos e um espelho. Gostar daquela peça de roupa eu já gostava, a única coisa que me impedia de sair por aí, diferente e feliz da vida, era o tal do julgamento, que poderia ser, inclusive, fruto da minha própria cabeça. (e mesmo que não fosse). Depender assim da opinião de gente que nem conhece: isso é justo?